terça-feira, 28 de outubro de 2014

MAPA

Ah!
Se eu tivesse estudado mais cartografia
conseguiria, talvez,
desenhar meridianos, trópicos, círculos polares
delimitar os caminhos, ilhas, arquipélagos, rios e mares
acusar todos os pontos nodais
identificar todas as direções
que me levam até você

Ah!
Se pudéssemos estar juntos agora
poderia, quem sabe,
percorrer teu corpo sinuoso
– como se de curvas fosse feito meu desejo –
e chegar, enfim,
aonde sempre quis estar:
do lado de dentro




domingo, 26 de outubro de 2014

TÁ CHOVENDO AMOR NO SEGUNDO TURNO

Hoje, dia 26/10/2014, foi o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil. E, aqui em BH, caiu um pé d'água o dia inteiro... Acordei e - burrice danada - resolvi ir votar depois do almoço. Almocei e nada da chuva estiar. Quando eram 14h30 decidi que iria sair de qualquer jeito. Sem guarda-chuva ou qualquer proteção, fui. E, como a lei Murphy sempre se aplica à minha vida, eis que a chuva engrossa... já tava na merda chuva mesmo, que molhasse. Corri até o ponto entre as marquises e não-marquises que mais pareciam chuveiros totalmente abertos e jorrando água de cachoeira: geladíssima! Meia hora no ponto de ônibus. Até que o bendito veio e veio vazio. Vou ter onde sentar, pensei. Meu livro-de-ônibus na bolsa, tudo ok. Passo a roleta e percebo um casal ao fundo, outro na frente, eu e mais duas pessoas aleatórias. O casal ao fundo chamava atenção porque eram muito bonitos. Todos os dois. Daqueles casais que a gente odeia porque são bonitos, ricos, inteligentes, legais e reais. Tinham cara de simpáticos. Ela tinha cabelos negros, com uma franja graciosa à la Brondi - que eu pensava que só ficava bom nela, me enganei - e, nos lábios, a cor bordô. Charmosíssima! Ele, alto, nem magro e nem gordo, sorrisão... segurava, e muito bem, uma barba castanha meio anos 70. Conversaram a viagem toda, riam das bobagens que diziam, estavam de mãos dadas. O ônibus chegou perto de onde vou descer, fico prestando atenção no caminho porque sou PhD em perder pontos. E ônibus. Mas isso é outra história. Fiquei de pé e, nesse momento, descobri um protótipo do himalaia rolando dentro das minhas alpargatas, que já estavam encharcadas. Que maravilha, não vou tirar as alpargatas e sacudir na frente desses dois. Seria humilhação demais. Quando levantei minha cabeça, vi minha imagem triste  projetada no vidro da janela do ônibus. Todo molhado, uma gota imensa escorrendo vagarosamente pelo meu nariz alemão, a camisa marrom com um botão aberto na altura do umbigo. Senhor! Como foi que eu deixei minha barriga chegar a esse ponto? E essa corcunda? Os cabelos raspados por um erro que não convém explicar agora, a barba falha... Me senti o Zacarias ao lado de Brad e Angelina. Queria apenas que as portas daquele ônibus se abrissem pra eu saltar de lá pra nunca mais. Chegou, graças a Deus, chegou. Andei até o lugar onde voto. Seiscentos e quarenta e três casais na rua. Não sei se eram as eleições ou a chuva - agora preguiçosa - que caía... mas abriram as portas do romantismo e expulsaram de lá todos os casais nesse domingo. Cheguei, sem fila, ainda bem. Agora vou tirar essa pedra do sapato, literalmente. Tcharam! Banheiros fechados. Mais uma vez, não vou tirar a alpargata dos pés e sacudi-la em público. Vou para o ponto de ônibus sacudindo o pé, como se estivesse brincando de "labirinto da bolinha" com a pedra no sapato. Mais um ônibus, mais casais. Casais por todo lado. No caminho de volta pra casa, mais chuva. Cheguei, finalmente, cheguei. Finalmente vou tirar esse paralelepípedo do pé (que deve estar sangrando). Tirei as alpargatas e sacudi, sacudi. Realmente tinha uma pedra. Só que do tamanho de um cílio. Ri. Como que essa desgraçada pedrinha desse tamanico conseguiu incomodar tanto? Tiro a roupa toda molhada correndo e vou para o banho. Olho para o espelho e reparo bem. Realmente haviam muitas imperfeiçoes só que, como no tamanho da pedra do sapato, eu errei na proporção.


... reparando melhor, até que eu fiquei bem com os cabelos raspados!

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

GOSTO DE BOCA

Dia desses, conversando com um amigo meu, ele disse gostar de beijo com gosto de boca. Curioso, perguntei o que seria o tal "gosto de boca". Questionei se poderia ser, talvez, um gostinho mentolado, de bala ou listerine. E ele disse que não, que não gosta de beijo asséptico, que gostava do gosto da boca mesmo. Tuti-frutti, nem pensar! Nem morango, nem chocolate ou vodca. Outra pessoa do grupo implicou dizendo que preferiria sempre uma boca com um quê de menta a uma fétida. Rimos e concordamos todos. Hoje, pensando sobre isso, entendi, finalmente, o "gosto de boca" que meu amigo tanto gosta. Todos nós temos cheiro, forma e sabor. Em cada pedacinho. Cada um tem o seu cheiro, o seu gosto, as suas formas. O gosto da boca é um dos sabores mais íntimos que uma pessoa pode ter. E só pode ser experimentado por quem tem a sensibilidade de compartilhar um beijo com os quatro sentidos. O beijo é quase um festival gastronômico. O beijo é gourmet. Beijar é isso e mais que isso: é o espetáculo completo! O beijo tem simetria, quando as bocas se encontram e os rostos ficam colados e se separam formando os narizes. Forma e contra-forma. O beijo tem som, tem ritmo, tem ginga. O beijo tem coreografia, ora as mãos estão nas costas, ora estão na nuca e tem quem desça mais um pouco. O beijo é um encontro, não só de línguas, mas, também, de dois num só gesto que diz - com a boca e sem palavras - um desejo. O beijo é uma troca, não só de saliva, mas de carinho, de sentimento compartilhado, de vontade... Quando o beijo não é mecânico, mas recheado de bem-querer, ele nunca é o mesmo. Então, me convenci que, realmente, cada um beija com o seu gosto, com sua dança, no seu compasso. E o espetáculo é único, íntimo e pessoal. Nós é que, às vezes, não sabemos aproveitar o presente por completo.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

UM ANO DE SILÊNCIO

Há um ano, resolvi dar fim a esse espaço. Mas, confesso que - apegado à tudo o que foi produzido, experimentado e desembrulhado nesse endereço - vez ou outra, voltava aqui para reviver coisas. Dizem que quem vive de passado é museu e eu discordo completamente. Nós somos um amontoado de passados. Nossas experiências estão todinhas em nós, marcadas, feito tatuagem na tez. E eu adoro recolorir as tatuagens bonitas que desenhei em minha vida. O nome desse espaço diz muito sobre isso. Eu me re-descubro todos os dias. Essa é uma graça, que recebemos de graça, na vida: o poder cíclico que algumas coisas boas têm. E até as ruins. Aprendemos muito com elas!

Bom, dito isso, estou aqui para re-inaugurar esse espaço. Mas ele não será o mesmo. Heráclito foi um cara muito esperto quando disse que não podíamos entrar num mesmo rio duas vezes... E não podemos mesmo! As águas já não são as mesmas e nem eu. Durante esse período sabático aqui no blog, eu não deixei de produzir. Escrever é quase que um exercício diário. Vivo poetizando o cotidiano. Essa é a minha maior e melhor fuga. 

Não tenho, rigorosamente, um estilo a ser seguido. Por isso, vou me dar maior liberdade de postar crônicas, textos, frases, poesias... qualquer rascunho de sentimento que possa tomar forma, virar palavra. O que eu desejo mesmo é que hajam trocas. Se houver umazinha que seja, já vai ter valido a pena. 

Um abraço,
Alysson